O resto era detalhe. O que realmente importava era o quanto ele ficava lindo quando sorria
daquele jeito. Por alguns segundos eu conseguia me esquecer de todas as coisas
ao nosso redor – as pessoas, o tempo ruim, a gritaria, o cheiro forte de fumaça
que estava me sufocando. Tudo isso se resumia em… nada. A única coisa que valia a pena era estar perto dele. Tentar
viver? Não, isso não importava. Ele sabia que estava morrendo, e eu
sabia que morreria também. Se fosse para morrermos, morreríamos juntos. Nada devia ser melhor que morrer
ouvindo aquela voz e ganhando de presente aquele sorriso tão bonito. Nada seria
mais gratificante que viver – até depois
da morte – com ele ao meu lado. Nada.
- Adeus – ele sussurrou em sua
voz rouca. A pele dele estava fria, mesmo com todo aquele fogo a nossa volta.
Ele estava suando e seu coração já não batia tão forte quanto antes. – Eu te
amo. Não se esqueça disso.
- Não vou esquecer – eu sorri. –
Nós vamos juntos.
Abracei-o com força e senti que
as chamas se aproximavam mais de nós dois. Senti medo, dor, e alegria por saber
que nada nos separaria. O ar denso da fumaça nos sufocava mais e mais. Já não
era mais possível respirar…
… até que algum anjo apagou todo
aquele fogo e algo frio e úmido tocou minha face. Tocou a dele também.
“Vocês vão ficar bem”, alguém dizia. “Conseguem me ouvir? Vocês vão ficar bem!”.
Meu ar voltou. Senti vontade de falar,
mas minha voz sairia abafada por causa da máscara de oxigênio. Abri os olhos e
eles arderam por causa da fumaça e de algumas chamas que ainda estavam acesas,
mas resisti e deixei meus olhos abertos. Olhei para o lado, e ele também estava
com uma máscara como a minha em sua face.
Ele estava vivo, tanto quanto eu.
Senti aquela sensação de tomar chocolate quente depois de beber café. Primeiro
vinha a parte ruim, mas depois era tudo tão bom!
E, quando esbocei um sorriso, ele
sorriu. De novo. Aquele mesmo
sorriso que fazia com que nada estivesse ao nosso redor. E mais uma vez eu
consegui ignorar tudo – a fumaça, a mascara que incomodava, a voz do anjo
dizendo que iriamos ficar bem. Eu já estava bem, e não precisava
de mais nada para me sentir melhor.
[- postei este texto há algum tempo no meu antigo tumblr, não estranhem se encontrá-lo por aí]


1 comentários:
Trágica e doce, tal e qual morte e chocolate.
Seria um romeu e julieta banhado no brigadeiro?
beijogro
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